Relatos de um Jovem Moderno

By Casal Conselheiro - 16:47

Já devia ser tarde, quem sabe umas duas da madrugada, saiu de lá desconcertado, um turbilhão de pensamentos e confusões. Júlio não tinha ideia do que ia acontecer adiante, só sabia de uma coisa, tinha que sair de lá o mais de pressa possível e ir para um lugar seguro, de preferencia sua casa. Andou pelas ruas frias e escuras, havia uma nevoa que limitava o campo de visão a um palmo quem sabe, não havia ninguém, só queria que o tempo passasse e essa adrenalina que não era prazerosa dissipasse. Mas o que teria acontecido? - pergunta meu leitor - O que houve com Júlio?





Antes de tudo, você precisa conhecer a história de Álvaro, garoto gente boa e inteligente, tirava oito em português e era representante de sala, chamava a molecada da rua pra jogar bola no campinho, tinha até uma "caixinha da turma", de moedinha em moedinha rolava uma pizza de vez em quando. Mas o pior aconteceu, seus pais se separaram quando o garoto tinha 9 anos, uma traição da mãe causou o desenlace matrimonial. O garoto foi morar com os avós, a mãe não tinha capacidade para criá-lo e o pai, desconsertado, deu inicio a uma vida errante e de aventuras na esperança de apagar o que aconteceu.

Os anos com os avós foram interessantes, com posses e dinheiro sobrando, atendia-se todos os desejos materiais de Alvinho, os video-games eram sempre da última geração, celulares, brinquedos... Até uma moto o garoto ganhou, com idade insuficiente até pra entrar numa auto escola para pedir informação no balcão. Uma criação baseada única exclusivamente no "sim" causa severos problemas em qualquer jovem, faz com que tenha grandes problemas em enfrentar as dificuldades e os "nãos" que a vida dá.

Com idade suficiente foi morar com o pai, já estabilizado e com uma nova família formada, quando chegou de viagem se deparou com uma nova realidade: uma rotina de regras e de simplicidade. Como se adaptar com marmita quem bate cartão no Paris 6? A discussão aqui não é a matéria, mas o "ter tudo que se quer". Inclusive, conheço pessoas com gordas contas bancárias muito mais humildes do que outras que moram no subúrbio (vai entender).

A adaptação não foi fácil, na verdade nunca aconteceu, Álvaro entrou em conflito constante com os membros da casa, tentava implantar uma nova sistemática de regras através de uma revolução mas não conseguiu, algo até então passivo de solução. Foi quando o garoto fez dezoito anos que um grande problema mostrou as caras. Seu avô não satisfeito com o estrago que já havia feito lhe presenteou com algumas dezenas de milhares de reais para que Alvinho escolhesse um carro a seu gosto, nem precisou procurar muito, logo avistou um carro algumas centenas de reais mais caro do que seu avô havia lhe presenteado.

Seu pai se tornara inimigo por seus insistentes e chatos conselhos. Seus inimigos se tornaram amigos, por fazerem tudo que eles queria que fizessem.

Já com o carro as amizades brotaram de um minuto pra outro, Alvinho se tornou popular no bairro, abastecia o carango e saia as voltas em círculo nas redondezas, sempre com um punhado de amigos - e ai gatinha? Passa o telefone? - era as investidas mais singelas dos garotos. O automóvel também servia de transporte para a rapazeada quando iam para as festas e bailes funk. Entre uma cerveja e outra, entre uma vodka e outra, entre um cigarro e outro, entre um carreira e outra, a mulherada, aliás, as meninas se interessavam, queriam uma carona, uma bebida ou uma selfie.

Tudo isso é muito atrativo quando se é jovem ou quando não se teve juventude, mas as armadilhas estão lá. Numa dessas festas Alvinho recebeu uma investida de uma bela garota, claro, não podemos incluir vestuário e palavreado no adjetivo bela, mas não importava pra eles, aliás o conteúdo não importava pra nenhum deles, o que saia da boca era só vozes soltas em busca de satisfação pessoal. Alvinho não titubeou, puxou-a pelo braço e a beijou, mal sabia que a investida era um "eu estou aqui, viu?" dela para o ex namorado, que enciumado e alterado pela adrenalina em suas veias tratou de intimar um grupo de amigos para atacar Alvinho.

Neste momento, com som alto, pouca luz, um cheiro insuportável, ficou difícil entender o que dizia um desconhecido raivoso e seus comparsas, Alvinho gesticulou pedindo calma e olhando para os lados em busca de seus amigos, não viu nenhum. Júlio (que na verdade poderia se chamar Pedro) via tudo a média distancia mas não se aproximou, viu seu amigo empurrando o raivoso e sendo atacado por todos eles, eram seis, chutes e pontapés. Júlio viu que um deles se notou que estavam juntos e o apontou, antes que eles viessem, saiu correndo em disparada, saiu do ambiente e saiu pelas ruas... Já devia ser tarde, quem sabe umas duas da madrugada, saiu de lá desconcertado, um turbilhão de pensamentos e confusões....


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